Lançada em 1971 pela gravadora Philips, "Construção" é muito mais do que uma canção de protesto: trata-se de um tratado sociológico, musical e linguístico sobre a condição humana na modernidade. Composta logo após o retorno de Chico Buarque do autoexílio na Itália, a faixa consolidou-se como um divisor de águas na MPB, retratando o cotidiano mecânico e a morte brutal de um operário da construção civil em meio ao crescimento urbano desordenado da década de 1970.
O Cenário Histórico: O "Milagre Econômico" e a Desumanização do Trabalho
Para compreender a força de "Construção", é fundamental analisar a conjuntura política do Brasil no início dos anos 1970. O país atravessava o governo do general Emílio Garrastazu Médici, período marcado pela repressão do Ato Institucional nº 5 (AI-5) e, simultaneamente, pela propaganda ufanista em torno do chamado "milagre econômico".
Grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro viviam um boom imobiliário e viário acelerado. Enquanto a publicidade governamental celebrava arranha-céus e obras faraônicas, os canteiros de obras eram alimentados por um contingente gigantesco de trabalhadores migrantes, submetidos a condições degradantes, baixos salários e jornadas exaustivas.
Chico Buarque capturou essa contradição: o próprio operário que erguia os símbolos da modernidade e do progresso era tratado como mera peça de reposição. Sua tragédia pessoal — despencar do alto de um andaime — não provocava comoção social; ao cair em via pública, o texto ressalta que ele apenas "atrapalhou o tráfego" e "atrapalhou o sábado". A vida do indivíduo periférico tinha menos relevância do que a fluidez do trânsito da classe média.
A Arquitetura Poética: Métrica Rigorosa e Permutação
A composição de "Construção" é estudada em departamentos de literatura e linguística devido à sua precisão matemática. Chico impôs a si mesmo restrições formais raramente vistas na música popular:
Versos Dodecassílabos (Alexandrinos): Todos os versos da letra possuem exatamente 12 sílabas poéticas, estabelecendo um andamento rítmico implacável que mimetiza o barulho cadenciado de maquinários de obra e as batidas de martelo.
Exclusividade de Rimas Proparoxítonas: Cada final de verso culmina em uma palavra proparoxítona (máquina, sábado, tímido, pétala, lágrima). Na prosódia do português brasileiro, a tonicidade recai na antepenúltima sílaba com duas sílabas átonas finais, gerando uma curva entoacional descendente. Esse recurso transmite a sensação física de peso, gravidade e iminência de queda.
O Jogo de Peças Intercambiáveis (Os Três Atos): A canção é montada como um edifício verbal em três movimentos, onde os substantivos e adjetivos finais trocam de posição, alterando radicalmente o sentido psicológico do relato.
| Movimento | Exemplo de Verso | Significado Narrativo |
| Ato I | "Amou daquela vez como se fosse a última" | O operário ainda preserva lampejos de humanidade, afeto e despedida. |
| Ato II | "Amou daquela vez como se fosse o último" | O afeto torna-se mecânico e apressado, moldado pelo cansaço do cotidiano. |
| Ato III | "Amou daquela vez como se fosse máquina" | A desumanização e a alienação total: o trabalhador é absorvido pelo sistema fabril. |
Produção Musical, Bastidores de Estúdio e Legado
A Gravação nos Estúdios da Philips e o Arranjo de Rogério Duprat
A força visceral da faixa dependeu diretamente da sua realização técnica. Com produção de Roberto Menescal e arranjo do maestro Rogério Duprat — célebre por sua atuação iconoclasta no movimento tropicalista —, a faixa foi gravada com a orquestra tocando ao vivo em estúdio junto aos músicos de base, exigindo sincronismo absoluto.
Duprat planejou o arranjo como uma espiral de tensão:
Início Contido: A música abre com o violão de Chico e um ritmo calmo de samba, representando a saída do trabalhador de sua casa pela manhã.
Crescendo Polifônico: À medida que a narrativa escala para o topo do andaime, entram camadas atonais de violinos, cellos e naipes de metais dissonantes.
Coro Trágico: A participação do grupo vocal MPB4 atua à maneira do coro clássico do teatro grego, amplificando o destino trágico do operário até a queda fatal sobre a calçada.
Na seção derradeira, a música entra em um vórtice rítmico e funde-se organicamente com a introdução de "Deus Lhe Pague", outra faixa do mesmo álbum. O encerramento mistura coros, ruídos urbanos e percussões sincopadas, traduzindo sonoramente o tráfego buzinando ao redor do corpo estendido no asfalto.
Como a Canção Burlou a Censura da Ditadura Militar
Em um dos períodos mais rigorosos da censura prévia, muitas canções de Chico Buarque eram sumariamente vetadas pelos censores federais. No entanto, a letra de "Construção" foi liberada na íntegra sem cortes.
O motivo principal residiu na sofisticação da linguagem. Chico não utilizou slogans panfletários nem termos explicitamente proibidos pelos manuais do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Para os técnicos governamentais, tratava-se apenas da crônica ficcional de um acidente de trabalho na construção civil. A crítica corrosiva ao projeto de modernização do regime e à desigualdade estrutural estava disfarçada na própria engrenagem formal e poética da composição.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Por que a canção termina com trechos de "Deus Lhe Pague"?
O álbum Construção foi concebido com forte caráter temático. A fusão final com "Deus Lhe Pague" reforça o ciclo de exploração: após narrar a morte indiferente do trabalhador, ouve-se o agradecimento irônico pelas migalhas concedidas pela ordem vigente ("Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir").
O personagem da música foi inspirado em uma pessoa real?
Não há registro de que o operário tenha sido modelado a partir de um indivíduo específico. Chico Buarque optou deliberadamente pelo anonimato do protagonista para conferir à canção um alcance universal, representando o migrante invisibilizado que construiu os centros urbanos brasileiros.
Qual foi o impacto do lançamento em 1971?
O disco vendeu cerca de 10.000 cópias por dia em suas primeiras semanas de distribuição — marca expressiva para o mercado fonográfico da época —, tornando-se um marco comercial e artístico que consagrou Chico Buarque como a voz lírica e crítica mais lúcida de sua geração.


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